quarta-feira, abril 26, 2006

Rainha dos Bambas, Rainha Quelé!!!


Clementina de Jesus, a Rainha Quelé.

Força de mulher negra,trouxe sua música verdadeira .Raízes na voz,sem os pós,retirados para aparecer o brilho.

Clementina,representante genuína da Mãe África.

Clementina,que soube carregar a nobreza a ela conferida por seus ancestrais.

Clementina,que provou que na terra árida,nas pedras,também nascem flores.

Clementina,que não pediu licença aos empresários da música para mostrar sua voz.

Clementina,com o jeito todo seu,guerreira meiga,enfrentou os palcos,fazendo deles uma festa da abolição.

Clementina conheceu e mostrou,o be-aba da vida e a experiência do dia-a-dia,levando na voz o dia de amanhã de sua comunidade negra.

Clementina,profissão: pagodeira mulher negra.

Clementina,que não deixou os entraves da vida fazê-la desistir daquilo para que veio:cantar.

Clementina,seu olhar trazia brilho de estrela,que iluminava da África ao Brasil.

E nós,perguntamos a você:"Marinheira,marinheira,quem te ensinou a navegar?Foi o ronco do navio,foi o balanço do mar?".

Clementina,cada vez que a víamos, a força da sua energia dissipava nossas nuvens de tristeza e desistência.
Clementina,que nos passou a resistência.
Apesar dos nãos.

Clementina,não só rainha do samba,rainha dos bambas,que vivem na corda bamba.

Clementina,poeta mulher,num país que diz que o idoso não tem mais nada a dar.Com sessenta e três anos anos,levou aos jovens,considerados donos da energia,a força do seu sonho,inteira,levantando multidões.

Clementina,que não foi consagrada pelas elites,pelas FMs,mas por um povo que grita,que sente na pele.

Clementina,que num palco nos chamava à luta e a sua única arma era a consciência do que somos,do que podemos.

Clementina,que trazia como aritmética da vida a soma e multiplicação de Dandaras,Luizas Mahin,Aqualtumes,Mães Aninha,e as anônimas quilombolas,do campo,das favelas e das cidades.

Clementina,esquecida na última parada por seus amigos das noites e dos dias.

Clementina,que tinha a beleza de um girassol,flor que não é dada como presente.Existe,embeleza,apenas.

Clementina, digo: Valeu! E quando a luta me parece muito dura cantarei sempre:
“Clementina,cadê você”?
Cadê você, cadê você?

Alzira Rufino
(poetisa, escritora, editora da Revista Eparrei e articulista com vários artigos publicados em jornais e revistas do Brasil e exterior).